Andrei Tarkovsky: Esculpir o tempo

Antes de tudo, “Esculpir o Tempo” é um manifesto e uma aula sobre a não alienação do trabalho artístico e da grande responsabilidade de quem produz imagens. Foi escrito por um Tarkovsky doente no exilio e talvez por isso assuma esse caráter transparente, verdadeiro e extremamente sincero em suas colocações, como devem ser as palavras de um homem que sabe que vai morrer.

“O meu mais fervoroso desejo sempre foi o de conseguir me expressar nos meus filmes, de dizer tudo com absoluta sinceridade, sem impor aos outros o meu ponto de vista. No entanto, se a visão do mundo transmitida pelo filme puder ser reconhecida por outras pessoas como parte integrante de si próprias, como algo a que nada, até agora, conseguira dar expressão, que maior estímulo para o meu trabalho eu poderia desejar? Este livro amadureceu durante todo o período em que minhas atividades profissionais estiveram suspensas… Seu principal objetivo é ajudar-me a descobrir os rumos da minha trajetória em meio ao emaranhado de possibilidades contidas nesta nova e extraordinária forma de arte – em essência, ainda tão pouco explorada – para que nela eu possa encontrar a mim mesmo, com plenitude e independência.”

Andrei Tarkovsky, Nostalghia, 1983

Símbolos: o cachorro e a casa da infância. Sonho ou nostalgia para um russo exilado?

Por todas as referências e colocações, este livro deveria ser estudado no 1º período nos cursos de Belas Artes e seria especialmente útil para os que se decidem por seguir em ilustração, cinema e animação. O enredo do livro se parece muito com as aulas com centenas de exemplos de Análise da Imagem do Rui de Oliveira, adicionado de uma narrativa extremamente sincera e sentimental de quem sente uma enorme responsabilidade frente ao caráter educador e formador da imagem.

tarkovsky

Stalker, a busca do paraíso: castigo ou premiação? Como em Richard Wagner, a água presente como elemento primordial.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção foram os dilemas e conflitos do cinema enquanto atividade (a Engenharia de Software e o design também) estão interessadas em um resultado previsível (não a inovação), em um processo e cronogramas com incio, meio e fim.

Numa época onde todos se tratam como possíveis clientes e fornecedores com perspectivas de negócios e lucros, gosto mais ainda do estilo direto na lata e sem muita diplomacia pós-moderna como os desse trecho:

“O que hoje passa por arte é, na sua maior parte, mentira pois é uma falácia supor que o método pode tornar-se o significado e o objectivo da arte. Não obstante, a maior parte dos artistas contemporâneos passa o seu tempo em exibições auto complacentes de método.”

Fora estes dilemas mais abertos, igualmente interessantes são visões sobre a literatura e sua relação com o cinema, a mise en cene, e teatro, defendendo com toda a experiência de quem produziu Stalker, Solaris e Andrei Rublev uma linguagem própria para o cinema.

Quem um dia já tentou desenhar ou escrever e toma isso como parte de si, vai se encantar com este livro, uma ode de amor ao trabalho e ao conhecimento e destacar numa tal página uma frase como: “com a ajuda do homem que o criador vem a conhecer a si próprio”.

Esculpir o tempo

ESCULPIR O TEMPO
Autor: Andrei Tarkovski
Editora: Martins Fontes

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